A marca que esperar a abertura da Copa do Mundo Feminina de 2027 para pensar em sua estratégia de entrada no mercado chegará tarde. Direitos, atletas, fornecedores, produtos, mídia, eventos e parceiros estarão mais caros, disputados e difíceis de mobilizar.
Essa foi uma das principais mensagens do PAIM Talks realizado em 4 de agosto de 2026, no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Com o tema “Copa de 2026 como aprendizado para o Brasil 2027: a oportunidade do futebol feminino”, o evento recebeu Tiago Pinto, fundador da The Brand Academy Miami e ex-executivo de marketing da Nike, Gatorade e Miami Marlins.
A provocação de Tiago é especialmente relevante para quem está desenhando uma estratégia de go-to-market, ou GTM, para a Copa Feminina. O evento não deve ser tratado apenas como uma oportunidade de exposição. Ele precisa ser visto como uma plataforma para lançar produtos, conquistar públicos, testar experiências, gerar demanda e criar uma relação mais próxima com consumidores.
Não venda a Copa. Resolva algo para o consumidor
A primeira decisão de uma estratégia de GTM não deveria ser escolher uma celebridade, comprar mídia ou procurar uma propriedade esportiva. A pergunta mais útil é outra: qual problema ou desejo do consumidor a marca consegue atender durante a Copa?
Na palestra, Tiago citou o caso do Uber Eats durante a Copa de 2026. A marca percebeu uma situação comum: pessoas reunidas em casa para assistir aos jogos, enquanto alguém precisava cuidar da comida, das bebidas e dos pedidos no momento mais importante da partida. A solução não foi apenas usar símbolos do futebol. Foi facilitar a experiência de quem queria aproveitar o jogo.
Essa lógica serve para diferentes setores. Uma empresa de turismo pode simplificar a viagem para as cidades-sede. Um banco pode criar soluções para pagamentos e gastos durante o evento. Uma marca de alimentos pode organizar a experiência de assistir aos jogos em casa. Uma empresa de tecnologia pode melhorar o acesso ao conteúdo ou oferecer ferramentas para torcedores.
O produto precisa entrar na conversa porque tem uma função real nela.
Comece pela história, não pelo influenciador
Influenciadores podem ampliar o alcance de uma campanha. Não deveriam ser o ponto de partida.
Para Tiago, a narrativa vem antes dos canais e dos rostos conhecidos. A marca precisa identificar uma história que tenha conexão com sua identidade e com aquilo que o público valoriza. Pode ser a trajetória de uma jogadora, o esforço de uma família, a rotina de uma comunidade, a relação entre uma cidade e o futebol ou o acesso de meninas ao esporte.
Esse cuidado evita uma armadilha comum: montar uma campanha com pessoas famosas, mas sem uma ideia capaz de gerar conversa. A visibilidade pode até acontecer. O problema é que ela não necessariamente produz lembrança, venda ou vínculo.
Os dados apresentados na palestra reforçam esse ponto. Durante a Copa de 2026, marcas que pagaram níveis semelhantes de patrocínio tiveram resultados muito diferentes em interações e menções. A diferença não estava apenas na exposição da logomarca. Estava na capacidade de contar uma história relevante e fazer o público querer repeti-la.
Entenda a escala antes de prometer a entrega
Uma estratégia de GTM para a Copa precisa combinar criatividade e operação. A ideia pode ser excelente, mas não produzir resultado se o produto não chegar ao ponto de venda, se a experiência não comportar a demanda ou se o atendimento falhar.
Na Copa de 2026, foram destacados mais de 6 milhões de ingressos vendidos e uma audiência de aproximadamente 60 milhões de pessoas na final nos Estados Unidos, segundo os números apresentados por Tiago. A transmissão em espanhol também cresceu de maneira expressiva. Cerca de 20% dessa audiência teria sido formada por americanos que não falavam espanhol, mas preferiam acompanhar a emoção daquela narração.
Esses dados mostram que a demanda pode surgir de lugares inesperados. O público não se limita ao torcedor tradicional. Famílias, turistas, imigrantes, consumidores ocasionais e pessoas atraídas pelo ambiente cultural do evento também entram no mercado.
Por isso, a empresa precisa dimensionar estoque, distribuição, suporte, fornecedores, segurança, tecnologia e capacidade de atendimento antes de anunciar a campanha.
Não dependa apenas dos direitos oficiais
O patrocínio pode abrir portas, mas não resolve a estratégia. Existem oportunidades em hospitalidade, varejo, turismo, gastronomia, eventos, conteúdo, relacionamento B2B e experiências locais.
O Clube 90, criado por Tiago Pinto em Miami durante a Copa de 2026, nasceu dessa leitura. O projeto ofereceu um ambiente climatizado, com comida, bebidas, telões e serviço para pessoas que queriam assistir aos jogos em grupo, sem enfrentar o calor e a lotação das Fan Fests. Também serviu a empresas que desejavam receber clientes, mas não podiam ativar suas marcas dentro dos estádios por restrições contratuais.
Para a Copa Feminina, uma marca pode construir sua própria porta de entrada. Pode criar uma experiência premium, uma programação para famílias, um circuito nas cidades-sede ou um produto que acompanhe o consumidor antes, durante e depois dos jogos.
Use o futebol feminino como espaço de expansão
A Copa de 2027 não deve ser tratada como uma versão menor do futebol masculino. Ela oferece possibilidades comerciais próprias.
Tiago destacou o crescimento da modalidade entre as Copas de 2015, 2019 e 2023, além do impacto que a maior exposição do esporte feminino teve nos Estados Unidos. O chamado efeito Caitlin Clark, na WNBA, ajudou a ampliar a atenção sobre atletas, transmissões, rivalidades e produtos ligados ao basquete feminino.
A consequência foi clara: quando o público teve acesso, passou a assistir. Quando assistiu, encontrou qualidade, entretenimento e personalidades.
Esse movimento abre espaço para setores como beleza, moda, saúde, educação, turismo, alimentação, tecnologia e bem-estar. As jogadoras já não são apenas atletas. Também são referências culturais, criadoras de conteúdo e figuras capazes de influenciar hábitos de consumo.
Transforme o patrocínio em uma plataforma de negócio
A Chobani, marca americana de iogurtes citada no evento, é um bom exemplo. A empresa associou seu patrocínio à Federação Americana de Futebol a um programa voltado para equipes infantis. Além da exposição, criou uma conexão com famílias, supermercados, comunidades e futebol de base.
Essa é a diferença entre comprar associação e construir mercado. O patrocínio deve ajudar a empresa a gerar experimentação, tráfego, vendas, dados, relacionamento e reputação.
A pergunta para cada marca é direta: depois que o público souber que somos patrocinadores ou apoiadores, o que queremos que ele faça?
A Copa do Mundo Feminina de 2027 pode ser um grande momento de posicionamento. Mas também pode ser uma janela concreta para lançar produtos, ampliar distribuição e conquistar novos consumidores. A empresa que começar agora terá tempo para testar, corrigir e escalar. A que esperar o evento confirmar seu sucesso terá apenas a chance de correr atrás do que outras marcas já construíram.

