Fizemos umalive para discutir uma pergunta que continua sendo tratada de forma superficial por empresários, gestores e pela imprensa: a inteligência artificial cria ou destrói empregos?
A conversa partiu de dois materiais que merecem atenção. O artigo de George Sivulka, da a16z, “You Just Hired a Million Bad Employees”, e o estudo “A New Look at AI’s Impact on Jobs: Firm-Level AI Spending and Workforce Adjustment”, publicado em junho de 2026.
O estudo analisou dados de 21.559 empresas americanas, cruzando gastos reais com IA e registros de contratação. Não são projeções sobre o que talvez aconteça. São sinais observados dentro de empresas que já estão investindo e operando com essas ferramentas.
O resultado contraria a tese simplista de que IA entra, pessoas saem.
As empresas com maior intensidade de adoção cresceram, em média, 10,2% em número de funcionários ao longo de 24 meses. O crescimento apareceu em engenharia, vendas, atendimento, finanças e áreas administrativas. Também houve avanço de 12% nas vagas de entrada.
Isso não prova que toda implementação de IA gera empregos. Também não elimina o risco de substituição em atividades específicas. O estudo mostra outra coisa: empresas que usam IA com profundidade tendem a expandir sua capacidade e, por consequência, sua necessidade de pessoas.
A diferença está na forma de adoção.
Muita empresa ainda mede sua maturidade em IA pelo número de licenças compradas, pelo uso informal de ChatGPT ou pela quantidade de apresentações feitas com algum recurso automatizado. Isso cria uma aparência de modernização, mas raramente muda o resultado do negócio.
A pesquisa identificou que empresas com baixa intensidade de investimento não tiveram um desempenho de contratação estatisticamente diferente das empresas que não adotaram IA. Em outras palavras, uso pontual não altera a estrutura da companhia.
Entre os adotantes mais intensos, o gasto médio foi de US$ 33,67 por funcionário ao mês. Entre os de baixa intensidade, US$ 2,78. A distância financeira importa, mas o que ela representa importa mais. Investimento maior costuma indicar integração em processos, dados organizados, treinamento, acompanhamento e disposição para mudar a forma de trabalhar.
Uma empresa não cresce porque seu time produz documentos mais rápido. Ela cresce quando reduz o tempo de resposta ao cliente, melhora a conversão comercial, acelera análises, diminui erros operacionais, amplia a capacidade de atendimento ou encontra espaço para lançar uma nova oferta.
A IA pode contribuir para tudo isso. Mas não faz isso sozinha.
Os resultados também não aparecem na primeira semana. O estudo aponta uma curva gradual. Após seis meses, os adotantes mais intensos já apresentavam diferença de 7% na contratação. Em 12 meses, 19%. Em 18 meses, 32%. No mês 24, a diferença chegou a 57%.
Esse ponto merece atenção porque muitas iniciativas morrem antes de amadurecer. A empresa contrata uma plataforma, libera o acesso para o time e espera uma transformação visível em trinta dias. Como o processo continua igual, os dados seguem desconectados e ninguém define o que deve melhorar, o projeto vira uma coleção de testes interessantes sem impacto mensurável.
Depois vem a frase conhecida: “Tentamos IA, mas não funcionou”.
Na maior parte dos casos, a empresa não tentou implementar IA. Tentou distribuir uma ferramenta.
É importante colocar esse problema em perspectiva. A ideia de que as empresas contrataram “um milhão de maus funcionários” é uma crítica à falta de gestão. Sistemas de IA sem contexto, critérios de qualidade, supervisão e responsabilidade podem multiplicar respostas ruins, decisões frágeis e processos confusos.
Uma IA mal orientada não é um ativo de produtividade. É uma fonte de retrabalho em alta velocidade.
A comparação com a gestão de pessoas é útil. Nenhum líder contrataria centenas de profissionais e diria apenas: “Agora trabalhem”. Haveria metas, treinamento, rotinas, liderança, indicadores e avaliação. Com IA, ainda existe uma crença equivocada de que a ferramenta entenderá a empresa por conta própria.
Não entenderá.
A discussão não deveria colocar pessoas e tecnologia em lados opostos. A questão é como usar tecnologia para aumentar a qualidade e o alcance do trabalho humano. Profissionais deixam de gastar tempo em tarefas repetitivas e passam a atuar onde contexto, julgamento, relacionamento e responsabilidade têm mais peso.
As pessoas já estão usando IA em nível pessoal no ambiente profissional. A questão que fica é: em qual processo a IA está mudando, de fato, a capacidade de a empresa crescer?

